Histórias de Luiza

 

 

Ronai Rocha, filósofo, UFSM

 

Boa parte das "Histórias de Luiza" ‘’ é o resultado da transcrição de conversas entre uma menina, de cinco anos de idade, com sua mãe. As conversas aconteceram, em sua grande maioria, no período de agosto a dezembro de 1998 e foram anotadas pela mãe, que, sabendo de meu interesse pelo tema, foi passando as anotações na medida em que as ia fazendo. Algumas histórias envolvem Luiza com outras pessoas. Todas elas estão narradas com a maior fidelidade possível. Os únicos ajustes feitos nas narrativas dizem respeito à pontuação e coisas parecidas. Estas histórias estão sendo reunidas no contexto de discussões sobre a relação de crianças com filosofia, na tradição de estudos de Gareth Matews e outros estudiosos, que acreditam que a filosofia, sem prejuízo de ser vista como um tipo de saber especializado, é, antes de tudo, algo que fazemos e que encontramos nas mais diversas situações de nossas vidas.

 

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Depois de contemplar longamente uma foto de sua mãe quando criança, Luiza se dá por conta que sua mãe também tem uma mãe. Começa então um interminável questionário: "E quem é a mãe da mãe ... da mãe... da mãe...!" Vendo que sempre alguém vem de alguém, Luiza pergunta:

- Quem foi a primeira mãe do mundo?

A mãe da Luiza conta a história de Adão e Eva. Luiza continua o questionário: "Mas quem é a mãe da Eva?". A mãe não tem outra saída a não ser falar em Deus.

- Minha filha, foi Deus quem fez Adão e Eva, para que morassem no mundo criado por Ele...

 

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Em outro dia Luiza retoma a conversa:

- Deus é homem ou mulher? Onde ele mora?

Em todos os lugares...

- Ah... e quem é a mãe dele?

Deus não teve mãe, sempre existiu...

- Ah não ! Eu acho que tem um estranho querendo te enganar; ninguém mora em mais de um lugar; até os animais ou são homens ou são mulher; e nem mãe ele tem... e para a gente existir tem que ter mãe, a gente sempre nasce de alguém.

 

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Luiza estava aprendendo a escrever os números. Até o número 9 ela não achou problemas. Depois sobreveio o desânimo. A primeira impressão de sua mãe foi que ela havia se desinteressado pela atividade. Ou seria cansaço? Na verdade, era um outro questionário que ia começar.

- Por que os números não acabam no 9? Depois do 9 é tudo igual; o 11 é o 1 do lado do 1; o 12 é o 1 do lado do 2.

A mãe de Luiza começa contar com ela coisas do mundo, tentando fazer ela entender que no mundo existem muitas coisas e que vão muito além do nove.

- Então número é igual filho?

- Como assim?

- Olha: a vó teve uma filha, tu teve mais uma filha, eu vou ter mais um filho, o meu filho vai ter mais um filho e assim vai, igual número, quando a gente pensa que termina, sempre tem mais um.

 

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Uma das tarefas no caderno de temas de Luiza é contar o número de laranjas desenhadas de um lado e ligar ao número correspondente que está do outro lado. A atividade, depois de um certo tempo, desperta uma curiosidade.

- Laranja, a gente pega nas árvores, compra, come e outras coisas. Mas os números, onde a gente vê os números, onde a gente pode pegar eles?

A mãe da Luiza mostra um número 1 feito de madeira.

- Ahh... não era assim, isso é igual laranja de cera, eu queria ver o número de verdade.

 

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Luiza fazia pequenos riscos com giz na calçada da casa e mostrava-se furiosa. Ela fazia os pequenos riscos e contava um, dois, três. Ela expressou sua indignação da seguinte maneira:

- Eu queria fazer "três" sem ter que fazer o "um" e o "dois".

A mãe sugeriu que ela fizesse o "três em algarismos arábicos. Mas logo surgiu uma nova descoberta:

- Descobri por que os números tem espaço dentro. Dentro deles está cheio de outros números. Quer ver? O número 1 é magrinho, pois é só ele mesmo; já o 2 tem o "um" duas vezes dentro dele; o 3 tem "três" "um" dentro dele ou tem o "um" mais o "dois" e assim vai...

 

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Influenciada por uma campanha na televisão, que falava na pomba da paz, Luiza quer escrever a palavra "PAZ". A mãe espalha sobre a mesa um jogo das letras do alfabeto e escreve numa folha a palavra "paz".

Luiza pega as três letras e ordena da seguinte maneira: A P Z

A mãe informa que não está escrito "paz".

- Como que não? As letras que estão no papel estão ali, separadas!

- Sim, Luiza! Mas elas não estão na ordem certa.

- É por isso que eu gosto mais de número! Para fazer 3 eu junto 1 + 2 ou 2 + 1, não importa quem vai na frente ou atrás do "mais".

 

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Luiza se preocupa com a possibilidade de sua mãe deixar de ser sua mãe e depois de várias explicações e comparações e histórias, ela encontra a solução para aquietar seu coração:

- Acabou meu problema. Mãe é igual triângulo.

- Como?

- Claro! O triângulo, passam os anos, continua triângulo, pode ter guerra, mudança e mais um monte de coisas que o triângulo nunca vai deixar de ser triângulo.

 

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Luiza, quando tinha 4 anos, foi pela primeira vez ao circo. Ela ficou encantada com o que via e perguntou: "Mãe isso está acontecendo de verdade ou é um sonho?"

- É verdade, Luiza.

Depois de algum tempo, no dia de seu aniversário, ela faz a mesma pergunta: "Estou sonhando ou é de verdade?"

Em outro dia, ela volta ao tema, de uma outra forma:

- Como eu fico sabendo se o que acontece comigo é sonho ou verdade? Afinal, no sonho eu sinto dor, fico triste, fico alegre, igual quando estou acordada?

 

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Luiza resolveu saber como as idéias entravam na cabeça. Como é que uma coisa, uma boneca que está no quarto pode estar dentro da cabeça?

- E essa coisa (a boneca) nem sempre está na minha cabeça do mesmo jeito que está no quarto. O que está dentro da cabeça é "uma coisa poderosa" porque vem das coisas que a gente olha, porque mesmo a gente não querendo pensar ela está dentro da cabeça.

 

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Luiza observava, muito interessada, sua tia amamentar o primo recém nascido. E pergunta:

- Ele não vai falar?

Ele vai aprender a falar escutando os adultos? Ele vai comer com a mão?

E assim seguiram-se outras perguntas, sobre aprendizados particulares, até o momento em que ela chega a uma pergunta mais ampla:

- Se tudo que ele vai fazer alguém vai ensinar como se faz, quem ensinou ele a chorar quando quer alguma coisa e a sugar o leite quando tem fome?

A tia responde:

- Isso já se nasce sabendo.

- Nasce sabendo? É um saber que vem do nada? De ninguém?

 

        Correspondência: Universidade Federal do Paraná | Departamento de Psicologia | Profª Drª Lidia Natalia Dobrianskyj Weber | Praça Santos Andrade, 50/1º andar | Cep 80020-300 | Curitiba - PR

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