A CRIANÇA E A TELEVISÃO

Lidia Natalia Dobrianskyj Weber, psicóloga, UFPR, lidiaw@uol.com.br

 

Muitos são os questionamentos a respeito da televisão para todos nós de maneira geral. Hoje pretendemos falar um pouco dos efeitos dos programas infantis (desenhos) sobre o comportamento de crianças. Muitos pais perguntam-se "Será que a TV é mesmo prejudicial?"; "Será que meu filho vai tornar-se uma pessoa passiva e sem criatividade pelo fato de estar assistindo TV durante muitas horas por dia?"; "A violência e as cenas de sexo de muitos programas poderão influenciar o comportamento do meu filho?"; "Devo proibir completamente a TV para meus filhos?". Por outro lado, muitos outros pais parecem não preocupar-se muito com estas questões, pois para eles a TV tornou-se uma alternativa mais segura de diversão para seus filhos, especialmente para os mais novos.

Assim como o progresso nos trouxe maiores comodidades em todos os níveis, também deixou as ruas mais perigosas para as crianças, tornou os amigos mais distantes e os avós mais ocupados, e com menos tempo disponível para brincar ou cuidar de seus netos. Assim, a criança que antigamente brincava de "esconde-esconde", de "subir em árvores" e de "pular amarelinha" com seus vizinhos de rua, hoje é uma criança que, geralmente, mora em um prédio de apartamentos e permanece um grande período de tempo assistindo fascinada aos "programas infantis". A mãe que, antigamente, ficava gritando pela vizinhança à procura de seus filhos, hoje pode fazer sossegadamente suas tarefas domésticas ou sair para o trabalho, pois sabe que a criança estará em casa e isso significa certa segurança que não existe mais nas ruas das grandes cidades.

Essa segurança e despreocupação com o paradeiro da criança reforça a atitude dos pais em deixar seu filho totalmente livre para assistir TV, tanto em relação à escolha dos programas, como ao período de tempo destinado para esta atividade. O fato da criança ficar em casa pode realmente deixar os pais mais tranqüilos, mas leva a pensar em outra questão importante para o desenvolvimento infantil: a falta de outras atividades saudáveis, especialmente o convívio com outras crianças, o qual proporciona o tão necessário jogo da socialização.

Não resta dúvida que com a TV a criança também vê, aprende e aprimora conhecimentos e vocabulário com uma velocidade muito maior do que seus avós o fizeram: a realidade é compreendida muito mais rapidamente e isso pode ser benéfico.... se a escolha dos programas for correta; .... se os pais puderem sentar junto com a criança e explicar-lhe determinadas cenas; ....se os pais não incentivarem comportamentos inadequados para determinadas idades, como certas danças com forte conotação sexual por meninas muito novas, fortemente incentivadas em muito programas – e que nada tem de construtivo nem de engraçadinho.

E os desenhos animados, qual a sua influência e mensagem para a cabecinha das crianças? Sabemos que a maioria dos desenhos infantis mostram muitas trapaças que dão certo e muitas mentiras com conseqüências positivas para o mentiroso, entre outros "modelos" de comportamentos inadequados que têm sucesso. Também mostram muitas brigas e cenas agressivas e, na maioria das vezes, não informam corretamente as conseqüência dessa agressividade. Isto significa que o gato Tom pode encher o rato Jerry de tapas e pontapés e, no minuto seguinte, o Jerry já estará correndo novamente, ou, um caminhão pode passar sobre a Tico e o Teco e eles simplesmente levantarem e continuarem sorrindo. Quase ninguém machuca-se ou fica seriamente doente nos desenhos infantis. Se, por um lado, isso preserva as crianças de verem cenas realmente violentas, por outro lado, algumas crianças podem começar a dar tapas e chutes em outras crianças ao seu redor, ou atravessar a rua sem olhar para os lados, não porque sejam "intrinsecamente agressivas" ou "distraídas", mas porque viram isso na TV e aprenderam que nada de mal acontecia aos personagens. Chama-se aprendizagem por imitação.

Proibir totalmente a TV também não é uma boa solução, mas os pais deveriam fazer uma análise criteriosa dos programas, tomando por base a idade e as outras atividades que seus filhos têm diariamente e ajudá-los a desenvolver um senso crítico diante dos programas. Mesmo que a criança não tenha nenhuma atividade durante o período da manhã, por exemplo, não é benéfico que ela fique 5 horas seguidas grudada na TV. Existem bons programas infantis, especialmente os veiculados pela TV Cultura, mas deixe claro que existe um limite de tempo diário (o qual você vai determinar) para que ela assista TV e tenha certeza que a criança encontrará facilmente muitas atividades interessantes e criativas para fazer com seu tempo sem TV, e algumas de suas idéias ela certamente aprendeu nos programas da televisão! Não podemos deixar que as crianças tornem-se escravos da TV, mas devemos proporcionar-lhes atividades que permitam as relações sociais, a criatividade e as trocas afetivas.

 

 

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