Projeto Criança - Desenvolvimento, Educação e Cidadania
 

                            Infância

  Um gosto de amora

     Comida com sol.

  A vida chamava-se “agora”.

                                                                   Guilherme de Almeida

    

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 O jornal do Projeto Criança / UFPR –  Ano II - N.05 - fevereiro/1999

                                                                

¨ Editorial

Neste mês nossas crianças voltam à escola... Estão acabando aqueles dias de verão à beira de piscina. Ou corpinhos molhados e salgados de água do mar... pelo menos para algumas crianças do Brasil.... Estão acabando os dias morosos, apartamentos revirados pela bagunça das férias e as crianças estarão voltando para a escola, porque sabemos que a Educação e somente a Educação com "E" maiúsculo é capaz de transformar os homens, as sociedades, o mundo em um lugar melhor para viver. É preciso ter consciência de si, dos outros e do mundo para tentar resgatar (ou construir) um mundo onde a ética e a solidariedade sejam prioritárias... e esperamos que as novas gerações consigam um mundo no qual realmente prefiram o amor à guerra, a fraternidade à competição! Para tanto, é preciso instrumentalizar as consciências... e... viva a educação! No entanto, a educação, infelizmente, ainda não é para todas as nossas crianças desse imenso país. Neste mês vocês lerão uma importante reportagem selecionada, algumas dicas e uma bela prosa poética... esse tema. Aguardo notícias e sugestões para os próximos números.

Um abraço ainda cheio de sol,

Lidia

 

¨ VOLTA ÀS AULAS PODE GERAR SÍNDROME DO PÂNICO DE ESCOLA

Matéria publicada no Jornal A folha de São Paulo em 07/02/99

JAIRO BOUER - especial para a Folha

 

Na véspera de voltar à escola, a criança fica ansiosa e não consegue dormir. Na hora de vestir o uniforme, passa mal. Já perto do colégio, começa a transpirar, fica com as mãos frias e o coração dispara. São os sintomas de uma síndrome muitas vezes confundida pelos pais com manha: pânico de escola.Com o início das aulas, que acontece em muitas escolas amanhã, os problemas de adaptação ficam mais evidentes e podem até exigir a intervenção de um especialista. Segundo a psiquiatra infantil Adriana Suplicy, o medo não é fabricado pelas crianças como um artifício para matar as aulas. Ele é absolutamente autêntico. Na verdade, existe uma perda de controle da criança sobre a situação. Adriana explica que esse quadro é totalmente diferente do caso em a criança arma todo um esquema para "cabular" as aulas e que, em geral, executa seus movimentos sem o conhecimento dos pais. As causas mais comuns da fobia escolar são ansiedade de separação e depressão. Nos casos mais severos, se alguma intervenção não for feita, a criança sente vergonha dos colegas, acaba tendo um empobrecimento de contatos sociais e pode acabar com prejuízos no rendimento escolar. Adriana diz que, ao contrário de outras fobias, a exposição da criança à situação geradora de ansiedade (no caso, a escola) rapidamente reverte a situação. Na chegada à aula, entrar em contato com colegas e professores faz a criança superar suas dificuldades. O medo só volta a se manifestar no dia seguinte. Segundo Adriana, a fobia é mais comum em crianças na faixa dos 10 aos 11 anos. As crianças menores (4 a 7) têm, muitas vezes, um quadro de choro ao ir para a escola pela primeira vez, o que demonstra medo de enfrentar uma situação nova. Crianças inquietas Outro problema na volta às aulas são as crianças que não conseguem manter a atenção nas atividades desenvolvidas, não param quietas e são impulsivas (agem sem pensar). Elas podem ter um quadro conhecido com distúrbio de déficit atencional e hiperatividade (veja quadro abaixo). As crianças ficam extremamente agitadas, não conseguem finalizar tarefas, têm dificuldades de reter informações e freqüentemente tomam atitudes pouco refletidas, como xingar, chutar ou responder mal aos professores. Para o diagnóstico do distúrbio, alguns dos sintomas já devem existir antes dos 7 anos. No entanto, muitas vezes, eles só ficam mais claros quando a criança sai do primário (em que a atenção dos professores é maior e o nível de exigência nos trabalhos é menor).


Distúrbio afeta 4% das crianças

O distúrbio de déficit de atenção e hiperatividade (DDAH) é mais comum do que se imagina.
Cerca de 4% das crianças podem ter esse problema. É mais freqüente em garotos. A proporção é de três meninos para uma menina. O baixo rendimento escolar é um dos principais indicadores.
A criança não é, em geral, muito popular na escola. Ela vai se tornando uma pessoa de convívio bastante difícil e com problemas de auto-estima. O resíduo dos sintomas na vida adulta também é mais comum do que se imagina. Cerca de 5% das crianças hiperativas acabam se tornando adultos hiperativos e mais de 40% deles têm, pelo menos, outras dificuldades psíquicas: ansiedade, abuso de drogas, comportamentos impulsivos etc.

Genética

A ciência aponta que existe uma base genética para o transtorno, que pode estar associada a algumas alterações neurológicas. A psiquiatra Adriana Suplicy explica que todas as repercussões negativas que a DDAH traz para a vida da criança e possivelmente para a do adulto justificam o tratamento dessa condição. Medicamentos Muitas vezes, só o tratamento com terapia se mostra insuficiente para controlar os prejuízos e as dificuldades enfrentadas pela criança. É aí que entra o uso de medicações apropriadas. A mais popular é o estimulante ritalina (metilfenidato), que parece controlar bem algumas das alterações de comportamento das crianças com o distúrbio.

A ritalina e o tratamento da DDAH ficaram tão populares nos Estados Unidos no início da década de 90, por exemplo, que hoje mais de 1,5 milhão de crianças tomam o remédio no país.
O tratamento, na maioria das vezes, é prescrito pelo próprio pediatra da criança, e não por um psiquiatra.
É importante que o diagnóstico seja preciso. Uma criança pequena - que muitas vezes é naturalmente agitada- não tem necessariamente esse transtorno.

 

¨ SEU FILHO VAI À ESCOLA PELA PRIMEIRA VEZ? ALGUMAS DICAS...

Lidia Natalia Dobrianskyj Weber

 

1. Geralmente as mães experimental algum sentimento de culpa por deixar seu filho na escola. Esqueça: estudos atuais recomendam enfaticamente a pré-escola desde muito cedo.

  1. As crianças crescem muito rapidamente e os pais estão divididos entre a alegria de ver seu filho tornar-se cada vez mais independente e a nostalgia de perder o "bebê" dos primeiros dias. Não o deixe confuso pois ele precisa confiar em você e de sua ajuda.

  2. A criança geralmente também experimental certa ansiedade nesta ocasião, portanto não deixe que sua insegurança o contamine. Nada de chorar na porta da escola dizendo "mamãe não queria deixar você aqui mas preciso trabalhar..."

  3. É recomendável que vco6e leve seu filho para conhecer a escola antes do primeiro dia de aula.

  4. Não crie expectativas exageradas a respeito do tal "primeiro dia", pois ele pode ser frustrante... Há sempre crianças chorando e mães ansiosas; aja com naturalidade... pois na verdade é natural!

  5. Deixe claro a seu filho que ele terá tempo para a adaptação. É normal que algumas crianças chorem e também é normal que outras crianças virem para a mãe, digam "tchau" e saiam correndo para entrar na escola... Nesse caso, muitas vezes quem precisa de adaptação é a mamãe, pois pode pensar que seu filho não é muito ligado nela...

  6. A definição de "apego seguro" é bastante clara: quanto mais segura a criança sente-se a respeito do amor de seus pais, tanto mais facilmente ela consegue separar-se deles por algum tempo, pois tem certeza de que eles voltarão! Crianças muito agarradas com a mãe e que fazem dramas em pequenas separações, podem estar experimentado o "apego inseguro" - elas percebem a situação de tal forma que imaginam que a mãe pode desaparecer para sempre a cada pequena separação. Portanto, avalie sua relação com seus filho.

  7. Mesmo que a escola permita a sua presença nos primeiras dias, lembre-se que você está lá para transmitir confiança e ajudar na adaptação do seu filho, mas não queira dar uma de professora! Em boas escolas as professoras são preparadas para essas situações!

¨ MEU FILHO ADORADO

Aldina Machry

Ele tem 10 anos, magrinho, cabelos ruivos e não para de falar .

Uma mostra do nosso papo diário:


- Mãe, acha que o meu pé é muito grande?
- Não filho, é normal !
- Mas parece grande! Não parece?!
- Parece um pouco!
- Mas tu falou que não parecia!!!
- Deixa isto pra lá, vem estudar!
- Já vou! Vou no banheiro primeiro.
- Toc ! Toc! - Quer sair daí e vir logo!
- To indo.
- Senta aqui de uma vez!
- Tá!
- Senta guri ! Para de mexer na minha gaveta!!!!
- Não estou mexendo , estou só olhando uma coisa!
- Que coisa?
- Isto daqui ó, não parece um bicho?
- Bicho tu tens no teu corpo, tens pó de mico !
- 0 que é isto?
- Pra que que eu fui falar?!.. não é nada guri, nada...
- Mas se não é nada, como é que tem nome?
- Não tem nome coisa nenhuma , vem logo!
- Deixa eu tomar água primeiro.
- Filho, vem!!!
- Mãe, e se eu rodar?
- Não vais rodar!
- Como é que tu sabes?
- Sabendo menino, para com isto e abre o caderno!
- Mas se já sabes que vou passar, então não preciso mais estudar, não é?
- Precisa sim. Me diz um verbo no infinitivo:
- Quando.
- Quaaado?! isto não é verbo, pois não é uma ação que a gente faça !
- Mas ninguém faz ''quando'', ele existe sozinho....
- Não filhinho do meu coração, verbo no infinitivo é amar, pensar...
- Mas estes não são aqueles da primeira conjugação?
- São , mas estão no infinitivo também!
- Agora me diz um substantivo abstrato:
- Pular.
- Não filho, pular é verbo.
- Mas a gente não consegue ver a palavra'' pular", ela é abstrata!
- É abstrata , mas não é verbo!
- Entendeu?
- Mais ou menos.
- Como assim mais ou menos filho?!...
- Olha aqui o meu pé, está roxo, tem um caroço nele!
- Não tem nada!
- Não estás nem olhando direito! Olha bem aqui... aqui ó.
- Isto não é nada,
- Não é nada porque não é contigo!
- Meu filho vamos estudar!
- Estou estudando....
- Agora diz para a mãezinha um substantivo concreto:
- Pedra.
- Muito bem...
- E um primitivo:
- Flor.
- Eu tô com fome!
- Mas comestes a pouco?!..
- Quero alguma coisa para comer!
- Quer bolacha?
- Não.
- Quer bolo?
- Não , está ruim.
- Mas adoras bolo de chocolate?!..
- Quero outra coisa !
- Que coisa?
- Não sei...
- Uma torrada?
- Tem queijo?
- Tem.
- Tem salame?
- Tem.
- Mas não quero!
- Filho, pedra é um substantivo primitivo, não é?
- Não, ele é concreto!
- É concreto e primitivo, meu amorzinho...
- Como vais ser as duas coisas coisas? , Não entendo! Tem que ser uma coisa ou outra!
- Querido ,pedra é um substantivo concreto, primitivo e comum.
- Agora piorou, estou ficando com dor de cabeça!
- Mãe , tu tens dor de cabeça?
- Não, não tenho!
- Mas porque eu tenho?!..
- Não sei. Esquece...
- Esquece o quê? a pedra ou a cabeça ?
- Assim não vai dar, tu não paras quieto, não te concentras!
- Onde vais???
- Vou embora, estás gritando comigo!!
- Não estou gritando filhinho, senta aqui...
- Mas o meu lápis está sem ponta.
- Pega outro lápis...
- Mas eu gosto deste aqui!
- Mãe, tu gostava de estudar?
- Gostava! Um pouco...
- Pra quê quer saber?!..
- E as tuas amigas gostavam?
- Chega!!!!!!
- Fala logo um substantivo coletivo:
- Mãe, O que é um substantivo? Por que tem este nome substantivo?!..
- Depois perguntas para a professora, agora me responde o que te perguntei!
- Mas por que este nome coletivo depois do substantivo?
- Meu Deus, dá-me paciência!
- Mãe, acreditas em Deus...
- Acredito...
- Olha lá, um avião enorme no céu!
- Deixa o avião, deixa o céu, deixa a vida filho e te aprisiona nestes livros inertes
que estão roubando o tempo contado da tua infância, e da tua espontaneidade !
- É lindo o avião filhinho....Quem irá lá dentro?
- Um dia vou ser aviador.. depois vou visitar outros planetas...
- Será que existem planetas habitados mãe?
- Acho que existem!
- Quantos?
- Mãe, será que eu vou passar mesmo?
- Vai, vai sim...
- E se eu não estudar?!...
- Hum !
- Se eu rodar, tu vais gostar de mim assim mesmo?!...
- Vou..
- Então me dá um abraço!
- Meu amor...
- E depois vamos estudar de verdade, mãe?
- Vamos querido..
- Mas só depois que eu comer...
- Que eu tomar banho...
- Que eu ver o meu filmezinho....

 

¨ FILME RECOMENDADO

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

Direção: Peter Weir, EUA. Com : Robin Williamsn, Ethan Hawke e Robert Sean Leonard.

O carismático professor John Keating (estrelado pelo brilhante Robin Williams) chega com seus modernos métodos do ensino a um colégio tradicional e conservador e desperta em seus alunos um novo questionamento acerca da vida, de sua posição do mundo. A máxima Carpe diem, que significa, "aproveitem o dia, façam de suas vidas algo extraordinário", estimulou os alunos a viverem mais intensamente. O filme leva à reflexão e exerceu forte impacto nas relações entre pais e filhos com aquela velha história dos filhos serem obrigados a satisfazer o desejo dos pais, e entre professores e alunos, com antigos métodos de punição, de autoritarismo e tédio.

¨ LIVRO RECOMENDADO

ENSINAR APRENDENDO

como superar os desafios do relacionamento professor-aluno em tempos de globalização

Içami Tiba

São Paulo: Editora Gente, 1998