Projeto Criança - Desenvolvimento, Educação e Cidadania
 

                            Infância

  Um gosto de amora

     Comida com sol.

  A vida chamava-se “agora”.

                                                                   Guilherme de Almeida

    

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 O jornal do Projeto Criança / UFPR –  Ano II - N.13- outubro/1999

                                                                

 

Editorial

Dizer que o mundo anda muito violento é, além de um chavão, uma verdade indiscutível. Essa violência no entanto modifica nosso comportamento e consequentemente, nossa consciência. Trancamos a porta do carro quando um pedinte se aproxima e andamos nelas ruas sem olharmos para a família que dorme na soleira de um prédio. Culpamos o governo e esperamos dele uma providência para tudo isso. Não sabemos de suas histórias, de como chegaram a esse ponto, e muito menos se um dia vão sair disso. Talvez por uma questão de auto defesa, também não estamos muito interessados nisso.

Muitos estudos e projetos já foram feitos para entender, aprender e auxiliar essa realidade. O Projeto Criança também faz sua parte com o trabalho na Comunidade Profeta Elias que abriga, dá trabalho, educação e acima de tudo, carinho e confiança à 25 meninos que viviam nas ruas. No nosso trabalho de resgate da auto estima esperamos restabelecer um pouco daquilo que foi perdido na convivência com uma família desestruturada e pelas ruas da cidade onde a lei da "selva de pedra"garante a sobrevivência. Montamos um grupo operativo e trabalhamos com atividades conduzidas por psicólogas e musicoterapeutas, num trabalho conjunto e com belos resultados. Alguns deles se expressam melhor verbalmente, outros, se expressam através de ritmos e comportamentos não verbais. O essencial é que todos os meninos desejam dizer algo sobre seus sonhos e experiências e nós queremos ouvir e aprender com eles.

Flávia Kimi Arantes Psicóloga; Voluntária do Projeto Criança -

¨ COM A PALAVRA: A CRIANÇA QUE MORA EM INSTITUIÇÃO

"A primeira vez que fui para em um orfanato eu era nenê… disseram que foi minha mãe que me abandonou... Depois eu saí de casa para cuidar de carro porque a mãe não tinha condições de me criar, daí fui para outro orfanato e depois um outro, até os quatro anos. Voltei pra casa e fiquei uns três anos e voltei para outro orfanato. Minha mãe veio me visitar só duas vezes e já tenho doze anos... Antes era legal... quando minha mãe tava casada com o pai do meu irmão, depois a gente começou a passar fome e precisei ir cuidar de carro. Seria ruim estar com ela, melhor aqui, porque eu não passo frio, não passo fome e não fico sujo. Queria ser adotado, ir morarcom meus irmãos, ser feliz… só. Quero ser adotado, senão eu vou ficar na rua e não vai ter outro jeito. Para mim podia ser um pai e uma mãe, ou uma mãe pelo menos... queria mesmo ter um pai ou uma mãe até eu crescer… que gostassem de mim, dos meus irmãos e que a gente ficasse feliz... até crescer… Com uma família eu ia ser feliz…" (João, menino institucionalizado, 12 anos).

 

¨ EDUCAÇÃO PARA UM MUNDO DE PAZ

Lidia Natalia Dobrianskyj Weber psicóloga, UFPR

 

Como é possível conseguir um mundo sem violência? Sem ódio, sem inveja, intolerância, discriminações? Parece impossível mesmo, mas... apesar desses sentimentos fazerem parte do comportamento do ser humano, eles não fazem parte necessariamente de sua natureza. Ninguém nasce sentindo ódio ou inveja ou com preconceitos. Esses são sentimentos e valores aprendidos socialmente. Lembra-me aquela história de uma professora negra que queria falar um pouco sobre discriminação racial para seus alunos de Jardim. Chamou uma linda menininha loira para frente da sala, estendeu a sua mão e pediu para ela colocar sua mão sobre a dela. Em seguida ela perguntou : "Você vê alguma diferença entre nossas mãos?". Ela respondeu "Claro que sim, tia". Então, a professora perguntou: "E você sabe me dizer qual é a diferença?" E ela, muito alegre por saber a resposta disse: "A minha mão é ‘mais pequena’ do que a sua!".

Cabe aos pais refletirem sobre que tipo de modelo estão fornecendo a seus filhos. Todos os preconceitos sociais são aprendidos em nossa vida e dependem exatamente como nós somos ensinados a pensar sobre as diferenças. Quando decidimos ter filhos, este deve ser um bom momento para refletirmos sobre que tipo de cidadão, que tipo de pessoa queremos que ele seja. Nós temos a capacidade para construir o mundo. Nós temos capacidade de construir pessoas justas, solidárias, tolerantes, amigas. Nunca é tarde para lembrar que é muito mais fácil construir uma criança do que reparar um adulto.

Se você somente critica seu filho ele, inevitavelmente, vai aprender a julgar e condenar os outros. Se você mente para seu filho ele vai aprender a mentir. Se você utiliza hostilidade, raiva e o humilha, ele vai aprender a brigar, lutar e expressar sua raiva com hostilidade diante de outras pessoas. Se você educa seu filho com violência, ele vai aprender que a violência é um bom método para resolver problemas.

No entanto, se você; educar seu filho com compreensão ele aprenderá a ser tolerante; se você for justo ele aprenderá o senso de justiça e fará esforços para que todos tenham justiça, se você o encorajar, ele crescerá amando a si mesmo. Quando uma pessoa ama realmente a si mesmo ela compreende que seu único caminho é amar o seu semelhante pois, como a Lua, será capaz de refletir esse amor e, como o Sol, terá capacidade de iluminar os outros. Uma pessoa que ama a si e ao outro sempre buscará o amor em seus atos, nos olhos do outro, nas imperfeições do mundo e na compreensão das diferenças.

 

A criança ama sem pensar que pode se ferir e dança como se ninguém estivesse olhando - a grande espontaneidade! Essa é a verdadeira liberdade na qual se funda a verdadeira paz, a paz de espírito.

Sandra Augusta de Melo, doutora em Psicologia pela PUCCAMP

 

 

O DIREITO DE SER CRIANÇA

Kátia Carvalho Abbud, Assistente social e pedagoga, CEPREV, Fórum Regional de Erradicação do Trabalho Infantil e de Proteção ao Adolescente Trabalhador keabbud@zaz.com.br

 

Sou criança, sou uma pessoa ,tenho direitos e gostaria que hoje fosse um dia em que esses direitos além de serem lembrados, fossem garantidos por todos, nos 365 dias do ano.

Estou falando de direitos básicos, necessários à felicidade e à construção da cidadania: direito á conviver com minha família, direito á escola, direito à saúde, direito à cultura e ao lazer, direito à moradia, á alimentação, entre outros. Esses direitos foram estabelecidos na Declaração Universal dos Direitos da Criança e, todo país que se diz civilizado deve lutar para que eles aconteçam, para que não fiquem só no papel.

Hoje quero falar de um desses direitos fundamentais: o direito a não trabalhar, o direito de não ser explorado, de não ser exposto a situações de risco, o direito de viver minha infância como criança e é aí que vamos encontrar uma das situações mais dolorosas para mim : o trabalho infantil .Esta é uma das formas mais violentas de se negar a felicidade a alguém: usar a mão de obra de crianças, além de condenar um país a não ter futuro, impede que eu e milhões de outras crianças se desenvolvam e que não possam viver plenamente uma das etapas mais importantes do desenvolvimento humano.

Dizem por aí que sou um problema: problema da criança de rua, problema da criança abandonada, problema da criança fora da escola, enfim, problema, problema, problema !

Será que sou um problema ou a solução? Será que não estão jogando em meus ombros mais uma carga que deveria estar no mundo dos adultos? Pensem nisto! Reflitam!

O mundo inteiro está se mobilizando para combater o trabalho de crianças e entendo que isto é uma das formas de dizer que criança tem direito à infância e que trabalho é coisa de adulto e que deve ser assumido por eles. A minha responsabilidade é estudar, brincar, me preparar para ser feliz e para poder conviver com minha família e minha comunidade. A minha responsabilidade é escrever a minha história como cidadão e, para isto, dependo dos instrumentos que os adultos me oferecem, entenderam???

Falam também que sou o futuro mas, gostaria de lembrar que sou também o presente e que serei o passado se não me derem a atenção especial e a proteção integral que mereço, que preciso e que exijo!

A Constituição Federal diz que sou prioridade absoluta e acho que está na hora de fazer cumprir a Lei, afinal, que país queremos construir? Que cidadão vocês querem que eu seja?

A resposta a estas perguntas e a muitas outras está na ação dos adultos e no compromisso com a infância !!! Com a palavra os adultos!!!!

 

O ato de adotar uma criança implica num desafio frente a uma sociedade que ainda sufoca e recrimina a diferença; implica também numa busca pela liberdade diante do diagnóstico de infertilidade, ou mesmo do abandono, violência e fracasso social. Adotar uma criança é antes de mais nada é adotar a si mesmo como um ser frágil e conflitante, mas com um desconhecido e imenso potencial para amar.
Gabriela Casellato, Psicoterapeuta

 

 

¨ A INFÂNCIA E A PAZ

Adelaide Consoni, Assistente Social, Vice-Presidente da IPA

 

Não se faz necessário dizer que as crianças em todo o mundo não podem ter nenhuma perspectiva de PAZ.

Aliás, existem hoje mais de 300.000 crianças envolvidas nas guerras pelo mundo. Elas são seqüestradas de suas casas, escolas e o primeiro exercício que são obrigadas a fazer é matar o seu melhor amigo. Estes sinais são a ponta de um imenso iceberg que nos desvela um mundo onde o respeito pela vida e pela dignidade humana é algo que temos em condição de muito baixa visibilidade. Penso ser inconcebível a barbárie a que são submetidas as crianças e adolescentes em todo o mundo.

A IPA - Associação Internacional pelo Direito da Criança Brincar é considerada mensageira da PAZ pela ONU, por suas ações educativas desenvolvidas em 55 países do mundo. Todas as ações por nós desenvolvidas são centradas no lúdico, pois entendemos que é a melhor forma de educar as crianças para a convivência familiar e comunitária. Para nós o brincar é uma coisa muito séria, não é um mero passatempo, é uma forma e vida.

Diante de tantas lesões aos direitos mais elementares da pessoa humana, sobretudo as crianças e os adolescentes deste país, o que vemos nesta década e fim e século é uma absurda crise de uma sociedade sem valores. É fundamental refletirmos a qualidade de vida a que estamos submetidos.

Temos consciência de que, em uma sociedade com tantas dificuldades, em garantir a própria sobrevivência de suas crianças e adolescentes, garantir o direito de brincar pode parecer supérfluo e dispensável.

É preciso porém que reflitamos sobre que espécie de vida queremos para as gerações futuras: uma vida solidária e compartilhada, plena de sentimentos harmônicos, apesar das dificuldades, ou uma vida marcada pelo individualismo, ódios e violência. A resposta está em nossas atitudes hoje, e lutar pelo direito de brincar, é lutar pelo direito à alegria, ao afeto e ao companheirismo.

Assim penso ser fundamental a educação para a PAZ . Sem isto me parece que a palavra PAZ não passará de mais um lenitivo para nossos ouvidos.

Uma educação para a PAZ, sob a minha ótica implica necessariamente que temos que evidenciar uma educação dos valores humanos e não dos "haveres humanos".

Esta educação para a PAZ deve outorgar uma importância clara e a criação de "climas de PAZ ". Estes climas devem ser permeados de valores de liberdade, de criatividade, de sinceridade, de amizade, beleza, justiça, diversidade, união, solidariedade e a bondade.

Porque uma educação para a PAZ? Tenho três razões para apontar isso:

1 - A necessidade de tecer e fazer coesão aos valores humanos como um eixo para a PAZ, que representa uma das mais nobres aspirações humanas; um horizonte utópico cujo trajeto têm na PAZ o único caminho possível para o progresso das pessoas, e todos os valores humanos são causas de PAZ.

2 - A necessidade de interrelacionar e amplificar a dimensão individual (PAZ interior) e a dimensão social (PAZ no entorno social). A PAZ não é uma política externa a pessoa, sim um compromisso pessoal e coletivo em todas as esferas da vida e tem uma dimensão política e estrutural que vai mais além das pessoas e de suas relações.

3 - A necessidade imperiosa de colocar na agenda do terceiro milênio otimismo e esperança, mas também idéias e convicções claras. PAZ não é neutralismo, PAZ não é ausência de conflitos, PAZ não é passividade nem falsa tolerância. PAZ é plenitude, é um processo de construção positiva. PAZ é cultura de reconciliação.

PAZ não é resignar-se a um futuro violento para a humanidade. PAZ É TRANSFORMAR A HISTÓRIA.

Este é o desafio que me coloco, pois sei que temos condições técnicas e humanas para transformar o estabelecido.

As crianças de todo o mundo merecem e esperam a PAZ. É na intenção de ser digna delas que construo este texto, pois para mim a palavra PAZ nunca foi lenitivo para meus ouvidos. Tenho buscado transformar a história e criar espaços de PAZ.

 

EVENTOS

A UFSCar, aAUGM — Associação das Universidades do Grupo Montevidéo e a UNESCO, organizaram o evento PAZ E INFÂNCI

A: UM PRESENTE PARA O FUTURO, a ser realizado no período de 18 a 22/10 na Universidade de São Carlos.

18 a 22/10/99 - Atividades com 400 crianças carentes da região de São Carlos.

19/10/99 - 20:OOh: Abertura do evento pelo Prof Dr. José R. Rebelatto, Mag. Reitor da UFSCar. 20:30h: Conferência de Frei Betto

20/10/99 15:00h: Conferências: Prof Dr. Cristovam Buarque - Presidente da ONG - Missão Criança; Carlos Nejar, Academia Brasileira de Letras

21/10/99 10:00h: Conferências: Lidia Natalia Dobrianskyj Weber- UFPR - Cátedra UNESCO Cultura de Paz; Sérgio Mindlin, Diretor-Presidente da Fundação Abrinq

15:OOh: Conferências: Sr . Udo Bok - UNICEF/SP; Pierre Weil - Reitor da Universidade da Paz; João Cariello de Moraes Filho - Diretor da Fundação Bradesco

22/10/99 Mesa Redonda: A situação da Criança e do Adolescente no Município de São Carlos: Umaia El Kahatib; João Batista Galhardo; Walcinyr Bragatto; Eleuse Martins; Neiza Godoy; Alex Educardo Gallo; Silvana Bragatto

18:00 encerramento do evento pelo reitor da UFSCar e apresentação do madrigal da UFSCar

Informações: e-mail: reitoria@power.ufscar.com.br

 

¨ MANIFESTO 2000 Por uma Cultura de PAZ e Não-Violência

 

A Assembléia Geral das Nações Unidas proclamou o ano 2000 como o "Ano Internacional da Cultura da Paz" e os anos de 2001 a 2010 como "Década Internacional da Cultura da Paz e da Não-Violência para as Crianças do Mundo". No marco da preparação do Ano da Cultura da Paz, em grupo de Prêmios Nobel da Paz, reunidos em Paris por motivo da celebração do 50º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, criou o "Manifesto 2000".

Reconhecendo minha parte de responsabilidade ante o futuro da humanidade, especialmente para as crianças de hoje e de amanhã, comprometo-me em minha vida diária, em minha família, meu trabalho, minha comunidade, meu país e minha região a:

1) Respeitar a Vida....

2) Praticar a não-violência ativa...

3) Compartilhar meu tempo e meus recursos materiais...

4) Defender a liberdade de expressão e a diversidade cultural...

5) Promover um consumo responsável

6-) Contribuir para o desenvolvimento de minha comunidade...

Difunda e envie este documento assinado a: Ano Internacional da Cultura da Paz, UNESCO 7, Place Fontenoy - F - 75352 - Paris - França Fax: + 33145685638 E-mail: manifesto 2000@unesco.org Você pode também assinar o Manifesto 2000 pela lnternet: www.unesco.org/manisfesto2000 Seu nome como assinante do Manifesto 2000 aparecerá na página da lnternet e todas as assinaturas do manifesto serão apresentadas à Assembléia Geral das Nações Unidas, em setembro de 2000.

 

A PAZ COMEÇA EM CASA - Campanha de prevenção da violência no ambiente familiar

CONVOCAÇÃO À SOCIEDADE PARA A CONSTRUÇÃO DE UMA CULTURA DE PAZ -

PASTORAL DA CRIANÇA - PASTORAL DA FAMÍLIA - CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - 04 de outubro de 1999 - Dia de São Francisco de Assis