Projeto Criança - Desenvolvimento, Educação e Cidadania
 

                            Infância

  Um gosto de amora

     Comida com sol.

  A vida chamava-se “agora”.

                                                                   Guilherme de Almeida

    

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 O jornal do Projeto Criança / UFPR –  Ano II - N.12- setembro/1999

                                                                

 

Editorial

"Chega mais perto e contempla as palavras
Cada uma
Tem mil faces secretas sob a face neutra"

Carlos Drumond de Andrade; Foto: Anne Geddes

Setembro é o mês de aniversário do PROJETO CRIANÇA cuja primeira ação foi exatamente a elaboração de um boletim informativo mensal sobre crianças na Internet. Esse é o segundo número impresso do CIRANDA DE CRIANÇA, boletim informativo mensal que iniciou sua primeira edição em setembro de 1998. Até o Nº 10 este informativo foi enviado somente via correio eletrônico (Internet) para uma listagem de mais de 1.000 pessoas em todo o Brasil e até algumas do exterior. Muitas cópias foram impressas em nossas impressoras pessoais ou copiadas em xerox e também distribuídas. Hoje, quando estava terminando a elaboração do informativo Nº 12, chegou-me as mãos a primeira edição impressa e fiquei comovida. Estamos tentando fazer um trabalho para divulgação de aspectos psicológicos em relação à Criança e a Família de forma compreensível e agradável para as pessoas. Gostaríamos de poder distribuir este boletim para todos que o desejassem. Temos encontrado colaboradores preciosos no decorrer deste ano: O jornalista Volmer S. do Rego (volmer@zaz.com.br) criou o logotipo do Projeto Criança a partir de uma foto de Tatiana; o cartunista Ademir Paixão criou o logotipo para o Ciranda de Criança e tantos outros cartoons; o webmaster da editora Juruá Luiz Hervatin (webmaster@jurua.com.br) criou um banner para o Projeto na Internet; o webdesigner da editora Juruá André Santi (santi@jurua.com.br ) o fotógrafo Manoel Guimarães (mguimaraes@bsi.com.br) está preparando uma belíssima exposição de fotos de crianças para refletirmos sobre o aniversário de 40 anos da Declaração dos Direitos da Criança, 10 anos da Convenção das Nações Unidas dos Direitos da Criança e 9 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente. O Projeto Criança conta com competentes profissionais que atuam voluntaria e apaixonadamente em prol da comunidade infantil carente -Adriana P. Gagno (psicóloga) trabalha a violência e outros temas da vida escolar com professores em uma escola estadual; Alessandra C. Barbosa (musicoterapeuta), Flávia M.K. Arantes (psicóloga - yume@matrix.com.br) e Francine K. Gonçalves (musicoterapeuta) atuam com os meninos da Comunidade de Meninos e Meninas de Rua Profeta Elias; a psicóloga Patrícia P. Moreira ajuda a supervisionar as estagiárias do Projeto em um trabalho com as crianças que moram no Lar o Bom Caminho. Temos ainda as Bolsistas da UFPR, Adriana, Ediléia, Patrícia e a bolsista voluntária Nathalie. Diversas editoras (ArtMed; Ática; Martins Fontes; Nascente; FIA-RJ; têm enviado livros como contribuição para a formação de nossa biblioteca e indicação de leitura (essencial para pais e para filhos). Muitos profissionais escreveram artigos, enviaram sugestões e dicas; tantas pessoas fizeram perguntas, apoiaram, incentivaram, elogiaram... Este Projeto começou de maneira independente e a partir de janeiro de 1999 conta com o apoio oficial da PROEC - Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da Universidade Federal do Paraná. Estamos contentes, mas queremos muito mais. Queremos uma forma de atingir mais crianças, mais pais, despertar consciências e fazer nascer sorrisos. Nesse nosso primeiro aniversário gostaria de agradecer a todos que participaram conosco. Gostaria de agradecer especialmente ao Dr. José Ernani de Carvalho Pacheco advogado, professor universitário e editor da Editora Juruá (editora@jurua.com.br) de Curitiba. Pessoa sensível e generosa que compreende nossos apelos e sempre nos ajudou: já patrocinou um folder sobre Adoção - "Famílias Adotivas: o amor é construído", gostou do nosso boletim e concordou em patrocinar sua impressão. Obrigada a todos. Que a primavera floresça no coração de vocês e jamais esqueçam do que disse Margaret Mead: "nunca duvide que poucos cidadãos, comprometidos com seus semelhantes, possam mudar o mundo. Foi assim que já se conseguiu alguma coisa".

Lidia Natalia Dobrianskyj Weber

<>Coordenadora do Projeto Criança: Desenvolvimento, Educação e Cidadania - pcdec@uol.com.br

 

¨ VIOLÊNCIA DOMÉSTICA: ROMPENDO O SILÊNCIO

Kátia Carvalho Abbud - Assistente Social e Pedagoga – vice presidente do CEPREV – Centro de Estudos e Prevenção da Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes, Ribeirão Preto-SP keabbud@zaz.com.br

 

"E que as crianças cantem livres sobre os muros e ensinem sonho ao que não pôde amar sem dor." (Taiguara)

 

A violência tem sido uma presença constante ao longo da história de crianças e adolescentes. O pouco significado da infância no contexto da relações econômico – sociais explicam parte deste processo, que, sendo historicamente construído, marca a humanidade nas suas diferentes etapas evolutivas.

Nesta história, a família e a escola, instituições primárias de socialização, desempenham significativos papéis na manutenção e reprodução do quadro de violências cometidas contra crianças e adolescentes.

Este artigo se propõe a romper o silêncio que mantém aprisionadas as vítimas, oferecendo uma contribuição que possibilite a reflexão e a tomada de decisão por parte daqueles que se comprometem em defender e garantir os direitos de milhares de crianças e adolescentes que são vitimizadas, todos os dias em suas próprias casas, por aqueles que deveriam ser responsáveis pela sua segurança e proteção.

A violência doméstica ou intrafamiliar não é um fenômeno novo. O que há de novo, é o desvendamento das relações familiares, colocando-as em xeque.

A família, nas diferentes funções que desempenha, pode ser um lugar extremamente perigoso e violento para aqueles que constituem o elo mais frágil de sua corrente : crianças e adolescentes. Reproduzindo modelos violentos de educação e de relações sociais e ainda, fragilizados por fatores de stress, os membros que detém a maior parcela de poder e controle, perpetuam a violência, da qual, muitas vezes, eles também são vítimas. Assim, o círculo se fecha e o "complô do silêncio" que inclui também profissionais que atendem crianças e adolescentes em diferentes situações, se encarrega de calar a voz e de abafar o sofrimento das vítimas.

Esta violência se constitui numa ação ou omissão de pais, parentes ou responsáveis que cometem atos que podem causar danos físicos, psicológicos ou sexuais a crianças e adolescentes e assume contornos que incluem a violência física (bater, espancar, queimar etc) a violência psicológica (humilhar, negligenciar, chantagear etc), a violência sexual( assédio sexual, abuso sexual, indução á prostituição e á pornografia) e a síndrome de Munchaüsen (simular doenças ou tratamentos médicos).

A violência doméstica é um fenômeno complexo, multicausal, presente em todas as classes sociais e etnias, repetitivo e duradouro, e se constitui de atos que estão interligados: a "pedagogia do tapa", muitas vezes, não acontece de forma isolada e tende a crescer de intensidade na violência. Exagero?? Não !!!As estatísticas se incumbem, através da frieza dos números, de nos colocar frente a frente com a dimensão do fenômeno.: as internações hospitalares de crianças com fraturas, queimaduras etc (vítimas de " acidentes domésticos") mostram, após investigação, que estes "acidentes" foram precedidos de outros atos violentos.

Que conseqüências pode causar esta violência? Conseqüências que deixam marcas para o resto da vida e que, passam desapercebidas, fazendo parte das "coisas naturais" tanto quanto a violência: a banalização dos atos violentos tende a conferir uma naturalidade às suas conseqüências. Assim, comportamentos (sinais de alerta) como: queda no desempenho escolar, isolamento, apatia, agressividade, masturbação excessiva, conhecimento sexual incompatível com a idade, insegurança, doenças não tratadas, aparência descuidada, faltas freqüentes às aulas, fugas de casa, uso de drogas (inclusive o álcool) envolvimento com atos infracionais (crimes) etc apresentados, são, muitas vezes, negligenciados, principalmente por profissionais que trabalham diretamente com crianças e adolescentes.

O que fazer? Romper o silêncio!!!!

Comprometer-se com uma cultura da valorização da infância e da adolescência, respeitando-os como pessoas em condição peculiar de desenvolvimento, sujeitos de direitos. Ouvir com respeito e sem preconceitos as queixas e observar os sinais de alerta que as próprias crianças e adolescentes nos enviam e que, muitas vezes, nos recusamos a ver.

Denunciar aos Conselhos Tutelares os casos de suspeita ou confirmação de maus tratos, obrigação, aliás, prevista no Estatuto da Crianças e do Adolescente.

Atuar na comunidade articulando políticas públicas de prevenção e proteção às vítimas.

Um lembrete: A sua atitude diante de uma vítima de violência depende da sua sensibilidade frente ao sofrimento e à dor de seu semelhante e da sua disposição em ver no outro a sua própria imagem e semelhança.

Refletir-se no espelho dos olhos daqueles que foram vítimas de violência: este é o desafio!!!

 

¨ ABUSO SEXUAL NA INFÂNCIA - NÃO PODEMOS MAIS FECHAR OS OLHOS

Patrícia Pereira Teixeira - Bolsista do Projeto Criança, UFPR - barba@ifnet.com.br

 

O abuso sexual embora pareça, não é um fenômeno atual, relatos bíblicos revelam que a exploração sexual e o incesto estavam presentes desde épocas bastante remotas. Mas foi apenas a partir dos anos 60 que o fenômeno foi identificado e suas formas passaram a ser estudadas.

O fato de estar sendo mais comentado atualmente se deve principalmente a evolução da sociedade e dos conceitos. No entanto apesar das mudanças ocorridas em torno da sexualidade continua difícil tocar no assunto, romper o "muro do silêncio". Não existem estudos estatísticos a respeito no Brasil, segundo dados americanos 20% das meninas e 9% dos meninos são abusados sexualmente antes de atingirem os 14 anos. Mesmo sendo uma questão séria se fecham os olhos para o assunto, isto ocorre pois envolve questões culturais (como incesto), e de relacionamento (dependência social e afetiva entre os membros, por exemplo mães que não denunciam o marido pois são dependentes financeiramente ). Envolve também, a questão da sexualidade, seja da criança/ do adolescente ou dos pais, e a complexa dinâmica familiar. Estima-se que poucos casos sejam denunciados quando há envolvimento de parentes. A vítima não faz a denúncia ou por motivos afetivos, ou por medo do abusador, medo de perder os pais, de ser expulso de casa, de que não acreditem em sua história, ou de ser causador de discórdia familiar. Outro aspecto que dificulta e perpetua o "muro do silêncio" é a omissão, o que segundo o ECA pode ser punido com multa.

Ao ler esse artigo você pode estar pensando que se trata de enredo de filme e que nunca acontecerá na sua casa, ou que coisas desse tipo só acontecem nas classes mais baixas. Errado, o abuso sexual não está ligado a renda, etnia, nível cultural, pode acontecer em qualquer classe social. Em classes mais altas inclusive, é mais difícil de ser constatado, pois as crianças podem ser encaminhadas para clínicas particulares, e a questão pode ser facilmente "abafada". Outro aspecto é que nesses casos, o vizinho, a professora ou o profissional de saúde acabam não denunciando.

Uma das definições de abuso sexual presentes nas literatura revelam que além do contato físico existem outras formas de abuso, menos evidentes mas igualmente danosos - O abuso sexual é uma situação em que uma criança ou adolescente é usado para gratificação sexual de um adulto ou adolescente mais velho, baseado em relação de poder que pode incluir desde carícias, manipulação da genitália, mama ou ânus, exploração sexual, "voyeurismo", pornografia, exibicionismo, até o ato sexual com ou sem penetração, com o u sem violência.

Você pode pensar que se trata de fantasia da cabeça das crianças, expostas a tantos apelos sexuais. Mas ao contrário, estudos mostram que em apenas 6% dos casos a história é fantasia.

Outro pensamento bastante comum é acreditar que o abusador é um tarado, com ficha na polícia. Na verdade é uma pessoas comum, acima de suspeitas, de inteligência média, e que provavelmente sofreu abusos na infância. E na maioria dos casos o agressor é um membro da família ou responsável pela criança, uma pessoa que a criança conhece e confia, que abusa de uma situação afetiva e/ou econômica. A proximidade facilita o abuso pois na maioria das vezes não é usado a força e não há sinais físicos evidentes, o que dificulta a identificação da violência.

Pouco se sabe sobre causas desse tipo de violência, um aspecto levantado indica que a situação de abuso na família está ligada a violência doméstica e a crises no meio familiar.

Uma forma de evitar que esse tipo de violência ocorra é a educação sexual para crianças antes mesmo dos 6 anos, já que a maioria dos abusos ocorrem antes dessa idade. Se a criança tiver um maior conhecimento do próprio corpo poderá até mesmo evitar o abuso, além de poder contar o que aconteceu. A abertura em casa também é importante para que a criança se sinta segura para falar sobre o assunto.

Sinais que podem indicar que a criança está sofrendo abusos:

ansiedade

baixa auto- estima

sonolência, pesadelo

perda ou excesso de apetite

urinar na cama

distúrbios de aprendizado

comportamento agressivo, apático ou isolado, tristeza

comportamento muito tenso, "estado de alerta"

comportamento sexual explícito e inadequado para a idade

não confiar em adultos, principalmente os mais próximos

idéias e tentativas de suicídio

auto-flagelação

choro sem causa aparente

faltar à escola com freqüência

Referência e ilustração da menina: Coleção Garantia de Direitos, FIA- Fundação Para a Infância e Adolescência - RJ . "Abuso sexual, mitos e realidade" de Lauro Monteiro Filho, Vania Izzo de Abreu e Luciana Barreto Phebo. (21) 286-3545 http://www.fia.rj.org.br

 

¨ EDUCAR SEM VIOLÊNCIA

Lidia Natalia Dobrianskyj Weber Psicóloga; UFPR Lidiaw@uol.com.br

 

Ser pai e mãe é uma das tarefas mais importantes que podemos ter. Cada novo dia junto com nossos filhos traz novos desafios, gratificações e emoções indeléveis. Ninguém disse que educar uma criança é um empreendimento fácil. Nenhuma criança vem com manual de instruções nem com certificado de garantia e, mais importante, cada criança é única e não existem pais nem filhos perfeitos. Todos nós erramos. Mas, com algumas dicas nós também podemos errar menos, tomar consciência dos nossos erros e tentar modificar nossas ações. Ser pai e ser mãe requer muitas doses de criatividade, paciência, tolerância, compreensão e muito, mas muito amor. Algumas tarefas podemos saber naturalmente e outras temos de aprender, assim como as crianças: algumas coisas elas acabam fazendo de forma natural e outras devem ser ensinadas a elas. Educar uma criança, ensinar-lhe valores, ética, cidadania, solidariedade, amor não é simples, mas é extremamente gratificante.

Educar uma criança toma tempo e requer experiência e prática; os pais devem ensinar limites e disciplina e ordem do mundo. E acredite, tudo isso pode e deve ser ensinado sem que você precise machucar o seu filho. Bater, humilhar, ameaçar e espancar não são métodos educativos. Você pode ensinar sem sequer levantar a mão para uma criança, mantendo ordem e disciplina. Se você bate em seu filho, o que está ensinando? Que a violência é capaz de resolver problemas... Disciplinar é ajudar uma criança a desenvolver seu autocontrole; é colocar limites ao comportamento. Educar e disciplinar também significa guiar, encorajar, ajudar a amar a si mesmo e a pensar o mundo.

Em uma pesquisa que estamos realizando no SOS-Criança de Curitiba os dados são assustadores:

- 52% dos casos foram cometidos pelas mães

- 68% das denúncias eram reincidentes

- 50% dos pais alegaram que batiam para corrigir o comportamento dos filhos

- 47 dos casos a denúncia foi feita por um vizinho

- a cabeça das crianças foi o alvo mais freqüente das agressões

- agressões ocorrem em todas as camadas sociais

- a maioria dos casos vitimou crianças com menos de 9 anos

Usar a punição física não ensina uma criança a controlar seu próprio comportamento e faz com que a criança somente tenha medo do adulto que toma conta dela. A disciplina ensina o respeito e não o medo e para ensinar o respeito é preciso, antes de tudo, respeitar. Uma criança não é um adulto incompleto: ela é um ser em desenvolvimento, com características e particularidades próprias, frágil, que depende de você para sobreviver. Você deve ajudar a criança a tornar-se independente e desenvolver-se. Com dignidade e respeito. Foi-se o tempo em que o filho era considerado "propriedade" de seus pais. A história mostra que demorou mas a criança é um sujeito de direitos.

Às vezes os pais também ficam com raiva e confusos, mas antes de bater em seu filho:

- Respire profundamente uma vez... e mais algumas.... lembre que você é um adulto.

- Pressione seus lábios e conte até.... 50.... pelo menos.

- Retire-se da situação. Vá até seu quarto. Reflita porque o fato o deixou com tanta raiva. Ë realmente seu filho ou outra coisa ?...

- Pense: alguma vez a expressão de sua raiva diante de sue filho ajudou a melhorar a situação?

Crianças fazem o que os pais fazem e não o que os pais dizem. Você deve ser o modelo para o seu filho. Se você deseja que seu filho obedeça certas regras, resolva seus problemas e controle certos sentimentos, você deve ser o maior exemplo para isso.

Crianças são seres magníficos. Criaturas que trazem dentro de si toques de anjos. Aprenda a rir mais, a aprender com eles, a prestar atenção no que dizem e como entendem o mundo. Lembre-se que o tempo passa muito, mas muito rápido mesmo...

 

¨ PERGUNTAS E RESPOSTAS

Estamos inaugurando a seção de "perguntas e respostas", na qual pais podem colocar as suas dúvidas, em relação ao Desenvolvimento, Educação e Cidadania da Criança, que serão respondidas por nossos participantes e colaboradores. Escreva ou mande um email!

* Ficaria muito contente em receber informações de como devemos tratar nossa filha que tem um excesso de timidez que está atrapalhando o seus desenvolvimento e criando uma grande dificuldade de sociabilizar com as outras pessoas que a rodeiam.

Pelo que você conta, sua filha tem modelos sociais apropriados tanto por parte de vocês, quanto dos irmãos. Há alguns pontos que são importantes a observar:

1. Ela seleciona os amiguinhos, conforme você cita. Esta é uma atitude importante dela. Afinal de contas, temos que gostar de todas as pessoas com quem convivemos, ou é natural que tenhamos mais afinidade com algumas pessoas e menos com outras?

2. Não gosta de festas de aniversário (vocês pais acham que ela gosta). Provavelmente ela está dando a vocês sinais de estar em conflito (ao mesmo tempo em que há coisas agradáveis e prazeirosas na festa, há pontos que a fazem não querer festa). Vocês discriminaram isto, quando colocam que o que ela não gosta é da hora do parabéns, quando tem que ser o centro das atenções. Não é possível programar uma festa de aniversário para ela definindo junto a ela alguns convidados que gostaria, mas garantindo-lhe que não haverá o tradicional parabéns com bolo e velinhas? Vocês podem usar a criatividade e programar uma atividade diferente, como por exemplo dizer que em vez do parabéns vocês pais irão estourar uma balão gigante com brinquedinhos para todas as crianças como um presente de sua filha para todos? Isto sem colocá-la no centro, ou mandá-la estourar o balão, que seria tão aversivo quanto o parabéns.

3.Tem havido queixa da professora da timidez dela. É comum dificuldades desta natureza serem generalizadas para outros contextos sociais. Vocês tem a preocupação que tal dificuldade comprometa o seu desenvolvimento escolar e social. Este é um ponto delicado, pois o contato social está aos poucos sofrendo limitação. Quanto a comprometer o acadêmico, é possível na medida em que ela se esquive de situações nas quais sejam propostas atividades grupais, ou quando o seu desempenho perante a turma seja exigido.

Sugestões:

1. Dar atenção e carinho à sua filha em geral, como vocês dizem fazer.

2. Evitar apontar a sua dificuldade no relacionamento interpessoal, tratando a timidez da criança de forma o mais natural possível, pois desta forma é possível que naturalmente ocorra a extinção desta dificuldade.

3. Quando perceber alto nível de ansiedade ao ter que deparar-se com situações que envolvam relacionar-se com outras pessoas, expressar o quanto às vezes isto é difícil, como : "Entendo que deva ser muito difícil para você ir à festa da sua amiguinha, mas ela vai ficar triste se você não for lá. Que tal se você for só um pouquinho e depois vamos embora?"

4.Perceber algum amiguinho ou amiguinha de quem ela fale mais e procurar promover passeios ou convites a esta criança para brincar na casa de vocês, procurando vocês pais aproximarem-se do outro casal dando assim modelo de aproximação social para a filha.

5. Um livro interessante para pais, chama-se Pais e Filhos de Haim Ginnott. Acho que seja uma leitura agradável e útil para vocês.

Se apesar de vocês tratarem com naturalidade a timidez, dando carinho em geral e não apenas quando ela se isola, procurarem oferecer oportunidades de trocas sociais em pequenos grupos e respeitando as preferências dela (amigos de quem goste mais), e mesmo assim a filha de vocês continuar a intensificar o seu isolamento e esquiva do relacionamento interpessoal, vale a pena fazer uma consulta com um psicólogo.

Suzane S. Löhr, psicóloga, UFPR; doutora em Psicologia Clínica pela USP; Coordenadora do projeto de extensão "Habilidades Sociais na Infância".

NA INTERNET

- http://www2.uol.com.br/andi. ANDI - Você vai encontrar informações sobre vários projetos sociais que atuam em relação à violência e maus tratos: ABRAPIA - Associação Brasileira Multiprofissional de proteção à Infância e Adolescência; Centro Latino-Americano de estudos sobre Violência e Saúde "Jorge Carrel"; Escola Nacional de Saúde Pública; CRAMI - Centro Regional de Atenção aos Maus Tratos na Infância ABCD.

 

- http://members.xoom.com/pcdec/ceprev.htm Centro de Estudos e Prevenção da Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes.

- http://www.mj.gov.br/titulo.htm Rede de Informações sobre Violência, exploração e Abuso Sexual de Crianças e Adolescentes.

- http://www.epub.org.br/cm/home.htm Revista eletrônica Cérebro e Mente; leis "maus tratos na infância"

- http://members.xoom.com/pcdec/pensebem.htm Pense bem ou sobre a punição física na infância

- http://members.xoom.com/pcdec/violenciamecasa.htm Pesquisa no SOS Criança de Curitiba