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O jornal do Projeto Criança / UFPR – Ano II - N.10 - julho/1999
Lidia Natalia Dobrianskyj Weber Departamento de Psicologia da UFPR Para começar a falar de crianças em férias e pais estressados com as férias das crianças, é preciso enfatizar que o período de férias significa um descanso das atividades escolares, das provas, das tarefas diárias, mas não significa que as crianças e os adolescentes devam tirar férias dos limites em sua vida. Uma certa elasticidade com os horários, uma certa irreverência com a preguiça é possível, mas veja bem, uma certa tolerância não significa que todas as regras tão duramente conquistadas (e espero que sim!), possam ser esquecidas porque estão em férias. Geralmente não é possível viajar nem realizar todas as aventuras que as crianças imaginam estar reservadas as férias, especialmente agora no meio do ano. Férias devem ser aproveitadas também para que os pequenos convivam mais com a sua família, com os tios, avós, vizinhos. Aproveitem também para arrumar aquela inacreditável bagunça nas gavetas da escrivaninha e fazer uma reciclagem nos brinquedos e roupas que, em seguida, poderiam ser doadas por eles próprios para os mais necessitados. Férias, limites e solidariedade ao mesmo tempo! Férias também lembram as mais famosas "babás eletrônicas" da atualidade: a TV e o videogame. Nesta semana eu estava conversando com um amigo e ele me perguntou: "O que você acha sobre essa história de videogames violentos serem prejudiciais para crianças?" Como foi uma pergunta técnica eu aproveitei e desfilei as razões que a Psicologia apresentava contra viogames violentos. Depois de toda minha explicação ele me disse com ar de dúvida: "Mas será mesmo? Acho que não... eu deixaria meu filho (ele ainda não tem filhos) jogar!" É impressionante como as pessoas têm resistência a modificar seu pensamento mesmo com argumentos da Psicologia, talvez por esta tratar essencialmente do conhecimento de coisas subjetivas (pensamentos, emoções, comportamento...). Se você perguntar para um engenheiro "como é que se contrói uma ponte?", você não vai dizer que seria melhor colocar esse ou aquele outro material.... Mas, de Psicologia, todo mundo acha que pode falar e que o seu conhecimento do senso-comum pode ser suficiente para resolver determinado problema. Pois bem, a ciência psicológica vem estudando a influência da TV, filmes e videogames (esses mais recentemente) há pelo menos 30 anos e os números das pesquisas são à prova de dúvidas: os dados mostram que à exposição à violência na TV e nos filmes (e videogames) aumenta a probabilidade de comportamento antisocial o agressivo. Paula Gomide, doutora em Psicologia e professora da UFPR, realizou um estudo original sobre filmes com mais de 500 adolescentes e registou seus comportamentos em um jogo de futebol. Os resultados mostram que houve um aumento do comportamento agressivo após assistirem um filme violento, especialmente com adolescentes do sexo masculino. A violência exibida em videogames atuais (Mortal Kombat, Carmageddon - proibido pelo Ministério da Justiça!) é inacreditável: o jogador faz pontos se atropelar velhinhas e crianças; o vencedor pode terminar com seu oponente decapitando-o ou arrancando seu coração do tórax... é sangue para todos os lados... Estudos americanos recentes revelam que jogar videogames violentos leva a um comportamento agressivo aumentado em brincadeiras livres subsequentes; em adolescentes a agressividade, a hostilidade e a ansiedade são respostas comuns para jogadores sistemáticos. Não adianta argumentar que na literatura e no teatro também existe agressão. Ninguém nega que existe violência em histórias de Racine, em contos-de-fada dos Irmãos Grimm, em fábulas e lendas e até em histórias bíblicas. A tecnologia da era da informação, rádio, TV, cinema, games, trouxe a possibilidade de alcançar milhões de pessoas ao mesmo tempo e, pela massificação do conteúdo, leva à banalização e a dessensibilização da pessoa em relação à violência. .... OS EFEITOS
... O QUE FAZER
Patrícia Pereira Teixeira - Bolsista do Projeto Criança / Graduanda Psicologia UFPR Está cada vez mais fácil iniciar os filhos no encantador mundo da leitura. Hoje é possível encontrar nas prateleiras livros de pano, de plástico, com figuras tridimensionais, de montar, de dobrar. Livro que também serve como travesseiro e livro que acompanha a hora do banho. Tudo para tornar o hábito da leitura ainda mais prazeroso. E mesmo quem ainda não sabe ler pode se divertir com livros coloridos e diferentes para dobrar e montar ou com histórias contadas em seqüência e sem nenhum texto. Os hábitos, como se sabe são desenvolvidos e com a leitura não é diferente. Isso significa que os pais devem dar o primeiro passo, isto é, comprar os livros, pois uma criança que não tem livros em casa dificilmente se interessará mais tarde pela leitura. Não apenas um exemplar, o ideal é que a criança tenha vários livros, já que aprecia a variedade e ao cansar de uma história terá outra disponível. Outro fator essencial, é que os pais leiam para os filhos, se no tempo livre os pais preferem ver televisão, as crianças irão associar o lazer a televisão e não aos livros. A criança imita os pais e se estes forem leitores, a criança terá tendência a seguir esse modelo. Tais comportamentos exigem disposição a dos pais, já que é bem mais cômodo chegar em casa e ligar a TV, no entanto isso o que significaria privar a criança de momentos valiosos e de grandes descobertas. Diante da TV a criança permanece muda, fascinada com personagens, com as imagens, com o movimento e as cores. Com os livros a criança pode parar a história, perguntar o que não entendeu, rir, pedir repetição. A TV pode levar a uma atitude passiva enquanto a leitura abre a possibilidade de questionar, dialogar e sentir com atenção. Os livros ajudam as crianças em fase de pré- alfabetização funcionando como porta de entrada para a língua escrita e o desenho das letras. A criança compreende a função da escrita e da narrativa, e observa que o que é falado está escrito no livro, o que facilita a identificação das letras. Além do que, ouvir uma história representa a chance de conhecer um universo diferente, de descobrir coisas desconhecidas como a vida do urso ou do palhaço, e também amplia o vocabulário. Os livros despertam a atenção dos pequenos em todas as idades. A criança até os dois anos e meio, se diverte com um determinado desenho e pede aos pais que abram todos os dias o livro na mesma página, depois de um tempo descobre um outro desenho numa outra página e se encanta. Nessa fase a criança não se interessa pela seqüência da história preferindo criar sua própria história e não vê a menor graça em folhear o livro quietinha, quer apontar as figuras, passar o dedo, abrir e fechar o livro. O livro, assim como um outro brinquedo da criança deve ser oferecido e deixado sempre a mão. Quando a criança cresce um pouco, a relação com o livro muda e surge o interesse pela narração original e principalmente, por quem lê a história. É a fase em que mesmo caindo de sono as crianças não deixam de pedir uma historinha. Se o cansaço impede os pais de capricharem na narração é interessante reservar energia para um momento tão importante, o de alimentar a imaginação e o universo simbólico dos filhos. Convém lembrar que mais vale um história bem contada que muitos programas usados para distrair a criançada . O empenho do narrador é importante, o tom de voz para cada personagem, o ritmo, a riqueza de detalhes e se possível um pouquinho de dramatização. As crianças vibram e acompanham com entusiasmo. E não é preciso um curso de contador de histórias, basta emoção nas palavras além do que, para as crianças não há nada melhor do que a voz do pai ou da mãe, timbre que conhecem tão bem. Para os filhos é um momento de atenção total, os pais se interessando por algo que para eles é importante. É comum insistirem em pedir a mesma história inúmeras vezes e ai se o narrador tenta dar uma de espertinho, encurtando ou contando rápido demais, as crianças não pensam duas vezes, criticam e pedem que volte. Querem a confirmação do que já sabem. No momento de escolher a história, não precisa ser muito criativo basta escolher as mais tradicionais, são contos repletos de símbolos dos sentimentos humanos e seus conflitos. É disso que as crianças precisam para dar nome e lugar para o que sentem. Além de enriquecerem a imaginação, tornam claras as emoções, reconhecem as dificuldades encontradas pelas crianças- suas ansiedades e desejos, sugerem soluções para os problemas que as perturbam e promovem confiança nelas mesmas e no futuro. Diferentes dos filmes e games em que só se mata e se destrói, nos conto os detalhes da narrativa são importantes, e as mortes não entram em qualquer lugar da história, como marca da violência, em muitos casos representam assimilação e crescimento. Os castigos aos vilões não trazem o peso de uma execução, são geralmente, a representação de que o mal e suas forças destrutivas são vencidos pelo poder do bem, dos sentimentos amadurecidos nos conflitos, pelo afeto. A noção de que os perigos existem, de que as atitudes podem ter resultados desastrosos, mas que no final prevalecem as forças ligadas à vida, dá às crianças a segurança de que o mundo é um lugar possível de se viver. Para os maus o fim é de sofrimento e morte, para os pequenos heróis sempre há perdão e chance de aprender com os erros. Sugestões para iniciar a biblioteca de seus filhos Ninoca Vai Dormir de Lucy Cousins, editora Ática, para dobrar e montar com figuras tridimensionais, indicado para crianças a partir de 1 ano. História do Gato de E. Bussolati e N.Costa, da editora L&PM, sem texto leva a criança a contar seu cotidiano com ajuda das ilustrações; indicado para crianças a partir de 2 anos. Romeu e Julieta, de Ruth Rocha, editora Ática, uma versão criativa para o clássico romântico com um final feliz; indicado para crianças a partir de 4 anos. Livro de Histórias, de Georgie Adam, editora Cia. das Letrinhas, seleção com os grandes clássicos infantis como Os Três Porquinhos e Chapeuzinho Vermelho; indicado para crianças maiores de 4 anos. O Tesouro das Virtudes para Crianças, org. Ana Maria Machado, editora Nova Fronteira e O Livro das Virtudes para Crianças, org. Willian J. Bennett, editora Nova Fronteira. Os dois livros abordam virtudes como amizade, honestidade, em pequenos textos que misturam diferentes estilos de narração.; a versão organizada por Ana Maria Machado trás adaptações de fábulas e lendas indígenas; indicado para crianças a partir de 6 anos.
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