A menina

Lidia Weber, psicóloga, UFPR, lidiaw@uol.com.br

 

Entre aquele bebê rosado com minúsculos brincos de pérola e fitinha
cor-de-rosa presa com sabão nos ralos cabelos e a mulher-amada-amante,
existe uma encantadora criatura chamada menina.
Elas podem ser muito diferentes entre si, loiras, morenas, ruivas, com
sardas ou com pele cor de jambo, magrinhas ou cheias de dobras, mas têm
uma coisa em comum: preenchem a vida de todas as pessoas à sua volta com
graça e doçura. Exceto quando estão brigando com o irmão para escolher o
canal da TV... aí viram tigresas de voz esganiçada.
As mães as adoram, os pais as idolatram (e se desmancham literalmente
diante da simples perspectiva de qualquer beicinho), os irmãos as atazanam
(puxam seus cabelos, riscam seus desenhos e implicam com suas amigas), os
meninos as perturbam (até uma certa idade meio indefinida, depois eles as
perseguem), os adultos as abraçam e beliscam suas bochechas, mas todos os anjos estão ao seu lado.
Uma menina é a Ternura quando nos olha com admiração, a Beleza com
sorvete de chocolate no vestido branco, a Compaixão quando fala
"pobrezinho do meu irmão (que tem 9 meses), ele nem sabe ler...", a Sabedoria
quando pergunta "por que existem pessoas pobres no mundo?", a Preocupação
quando quer saber, "doeu quando descosturaram a sua barriga para tirar eu e o
meu irmão?", a Perspicácia ao observar "Mamãe tem cabelo, meu irmão tem
cabelo, eu tenho cabelo e papai não tem cabelo. Tem que comprar... no
shopping!", a Esperança no futuro quando preocupa-se se a joaninha que está
passeando pela janela não vai cair.
Uma menina aprende a manipular os seus semelhantes, principalmente seu
semelhante pai e sua semelhante mãe, com uma destreza que deixaria Don Juan
de queixo caído. Quando tem algum desejo lança seu olhar mais doce N.º 45, faz
voz de anjo e encosta levemente a sua cabeça com cabelos cheirosos em nosso
rosto, como uma gata. Quem há de resistir? Meninas ficam mais mimadas, mas
seu comportamento é pura covardia. E afinal, pais também são humanos.
A sua capacidade de adaptação camaleônica é estonteante: pela manhã ela
pode jogar bola junto com seu irmão (sim, eles se amam, às vezes) e ralar o
joelho, e poucas horas depois transformar-se em uma princesa russa num vestido
diáfano cor-de-rosa. Aliás, tudo deve ser cor-de-rosa. Por que as mães insistem
em outras cores ("azul para combinar com os olhos, minha filha..."), ou em
roupas fashion? As meninas gostam mesmo é de roupas cor-de-rosa com
personagens de desenhos infantis. Somente uma menina é capaz de ter em sua
gaveta 229 tiaras e fitinhas para o cabelo e chegar com lágrimas no olhos:
"mamãe, não tenho nenhum laço para combinar com este vestido...".
Meninas adoram filmes românticos, corações de todos os tipos, cores e
tamanhos, coleções de adesivos, cremes da mãe, bonecas barbies, miniaturas,
coisas iguais as da mãe, material escolar com personagens de desenhos infantis
papai e mamãe, perfumes da mãe, sorvetes, festas de aniversário, bijuterias da
mãe, mais corações, colo e carinho, ouvir histórias, agendas coloridas e beijos.
Meninas não gostam que a gente ralhe com elas. Meninas são muito sensíveis e
seu choro machuca o coração de qualquer um.
A menina é emoção em estado puro. Só ela é capaz de assistir A Pequena
Sereia 30 vezes, gritar com o show das Spice Girls e chorar todas as vezes, mas
todas as vezes mesmo, que o ET vai embora no final do filme. A menina é capaz
de passar horas a fio desenhando corações para seu papai (embora em pouco
tempo comece a desenhá-los para seu namoradinho platônico), ou horas a fio
brincando de casinha com suas bonecas. A menina faz a sua mãe reviver sua
própria infância e adora ficar um tempão na frente do espelho experimentando
todos aqueles colares da mãe, vestindo seus vestidos, camisolas de seda e
sapatos de salto. Ela também adora derramar todos aqueles caríssimos perfumes
franceses nos seus bichos de pelúcia ("para ficarem cheirosos igual você,
mamãe!") e derramar a sua maquiagem em cima do tapete chinês e passar batom
no rosto do irmão (quando ele é mais novo). Uma menina é encantadora. Às
vezes ela dança ballet e os pais ficam babando na primeira fila com cara de
"minha-filha-é-a-mais-maravilhosa-do-mundo". Quem pode resistir a uma
menina com roupa de bailarina?
Só a menina chega um dia em casa chorando copiosamente porque sua melhor
amiga a chamou de "bobona" ou o seu colega de sala, "aquele chato", puxou o
seu cabelo no recreio. No dia seguinte, a mesma menina chega cantando porque
aquela amiga de ontem a convidou para o seu aniversário e o menino, já não tão
chato, lhe deu uma figurinha do homem-aranha de presente.... Meninas são
assim. Um treinamento intensivo para serem mulheres-amigas-amadas-amantes.
Às vezes você sente que está sendo manipulado, mas finge que não percebe.
Todos aqueles bilhetes e corações que ela desenhou e escreveu para você, e que
fizeram você emocionar-se, estão cuidadosamente guardados na gaveta. Um dia
você irá mostrar-lhe. Talvez seja bom você mostrar-lhe no dia em que ela lhe
contar que está apaixonada por aquele vizinho cabeludo que tem um brinco no
nariz... A menina é, e sempre vai ser, uma criatura encantadora, suave, intensa,
mágica, principalmente quando ela se joga em seus braços, assim gratuitamente,
no meio de uma tarde morosa de verão: "Mamãe, papai, eu adoro vocês!".

 


 

 

Lidia Natalia Dobrianskyj Weber, Inspirada pelo texto "O que é um menino" de Alan Beck e pela filha Tatiana de quase 7 anos.

 

 

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